Nunca tinha estado em Angola. Desta vez, tive o privilégio de ser convidado a integrar uma equipa de formadores da iiR (Institute for International Research) para leccionar um curso de rácios financeiros e outro de Controlo de Gestão.
A experiência foi algo inesquecível que classifico de fabulosa. A vontade das pessoas por aprender ensinou-me bastante. A realidade em que cresci nada tem a ver com a realidade com que o angolano médio, nasce, cresce e “sobrevive”. Para sabermos o que há do outro lado do rio, temos obrigatoriamente de o cruzar, porque sem a experiência real, simplesmente não conhecemos.
Para além das áreas mais técnicas que abordámos guardo a experiência do Félix, aluno dos dois cursos mencionados que ao almoço do terceiro dia resolveu contar-nos a história da sua vida: acho que todos chorámos à nossa maneira durante aquele almoço, onde estavam entre 8 e 10 pessoas.
Contava que o seu sonho de criança era comer o frango inteiro. Orfão de pai aos 4 anos, assumiu ao lado da mãe a responsabilidade de criar 5 irmãos mais novos. As refeições da família eram um copo de água com sal pela manhã, e um pão seco pela tarde, pão este que não chegava todos os dias…
Aos 9 anos saiu de casa porque o novo companheiro da mãe o tratava mal recorrendo ao seu tio para experimentar nova sorte. A esta idade era completamente independente em relação à roupa que vestia ao que comia e à vida de estudante que não deixou. A vida em casa do tio também não era fácil. Entretando esteve às portas da morte por paludismo, tendo-lhe o médico comunicado que a razão de ainda estar vivo se prendia com o facto de nunca ter parado de trabalhar e não ter deixado a doença evoluir para o fim, numa vida que só ele consegue valorizar.
Na adolescência começou a jogar Basketbol, o que lhe deu muita confiança e satisfação, mas quando foi confrontado com a decisão de jogar na selecção Angolana ou estudar, a resposta foi clara e inequívoca: Estudar, porque a responsabilidade que tinha não permitia alimentar um sonho desportivo que poderia ter um futuro muito curto. A história continuou por mais algum tempo.
Hoje, Félix diz-nos que os irmão por mais de uma vez que disseram: “Mano, nesta casa nunca faltou uma referência para nos guiar”. A recompensa de tanto esforço tinha chegado e o valor dessa recompensa é algo que só esta família consegue avaliar. O Félix tem hoje em dia formação académica, e compete para aprender e ser melhor. Consegue ajudar a família, comprou um carro, e encontra pela rua amigos e atletas internacionais do basketbol que estão que lhe perguntam: “Como arranjaste dinheiro para essa camisa de manga comprida?”
Dá que pensar, não dá? Daremos todos nós a importância suficiente às nossas famílias, zelando pelo interesse dessa comunidade? Esteja ela inserida na realidade em que estiver?
A lição que retirei e que comprovei muitas vezes com a minha própria experiência de vida é que se não estamos preparados para o próximo presente, as coisas podem ser muito complicadas. A importância do pensamento estratégico e de longo prazo, permitiu ao Félix, nunca deixar que o seu caminho fosse interrompido, defendendo sempre as suas convicções e responsabilidades.
Uma lição de vida e uma lição de Gestão.
Obrigado a todos os formandos dos cursos
Obrigado à iiR na pessoa da Raquel Felix
Obrigado ao mestre Raúl Costa e ao Dr. Paulo Abreu
Ricardo Andorinho














